Analise da obra – The Artist is Present

Marina Abramovic – “The Artist is Present”

23/05/2010

SILVA, Patrícia Mara Rodrigues

patriciamarars@gmail.com

Escola Guignard – UEMG

“The artist is present” é uma performance de Marina Abramovic realizada no MoMA entre 14 de março e 31 de maio de 2010, que se constitui de uma retrospectiva de seus trabalhos junto a uma performance inédita realizada pela artista. Nesta performance, Abramovic está pessoalmente presente no museu durante todo o período da exposição em um cenário composto por uma mesa, duas cadeiras e um grande espaço vazio ao redor. A artista se localiza diante da mesa, sentada em uma cadeira de frente para uma cadeira vazia, que eventualmente é ocupada por um visitante do museu. A artista permanece estática e em silêncio durante toda a performance.

Junto a essa performance, em outras partes do museu, outros perfomers realizam reproduções de alguns de outros seus trabalhos performáticos. Marina selecionou 36 jovens artistas para re-performarem seus trabalhos mais famosos, como “Impondarabilia”, em que dois performers, ambos completamente nus, ficam parados frente a frente em uma porta e os visitantes são obrigados a passar entre eles.

Para preparar estes artistas, Marina os convocou para uma estadia de quatro dias em sua casa de campo, onde eles não teriam lugar para dormir ou se banhar e deveriam permanecer em silencio durante todos os dias. Também foram propostos exercícios em grupo e individuais, como andar de trás pra frente em câmera lenta, contar grãos de arroz e observar um único objeto por horas. O objetivo é deixar os re-performers cientes dos limites de seus corpos e mentes, pois para performar é preciso auto-conhecimento e auto-controle, segundo a artista.

“The Artist is present” é uma obra única, que proporciona ao espectador uma experiência inédita. Esta é a mais longa performance que Marina Abramovic realizou sozinha. Nela, a artista leva seu corpo e sua mente ao limite, assim, segundo ela, conseguindo alcançar um estado especial de espírito que será transmitido para a audiência: o que ela chama de “energy diologue”.

Há ainda um outro tipo de contato do público com a obra: uma câmera foi instalada para que a performance também possa ser vista em tempo real através do site do museu. Permitindo qualquer pessoa do mundo acompanhar o trabalho da artista.

Questões levantadas pela obra – “Artists is present” trata de várias questões relevantes a discussão sobre a produção artística na contemporaneidade. Pela primeira vez, a performance está realmente sendo exposta como a obra de um museu, durante todo o período de exposição. E traz questões colocadas pela própria artista: como a performance pode ser parte da vida do museu? Como pode a performance ser coletada pelo sistema do museu? O que acontece, por exemplo, se o artista morrer durante a exposição? Como eles deverão prosseguir?

Fazendo uma análise deste trabalho à luz da teoria de Bourriaud sobre a Estética relacional, esta performance de Marina, entre outras, pode ser vista como Arte relacional, pois toma como horizonte teórico a esfera das interações humanas e seu contexto social, quando, por exemplo, propõe ao visitante se sentar junto a ela em uma mesa, ou a passar entre dois corpos nus em uma porta.

Para Bourriaud, esse tipo de trabalho artístico desenvolve um projeto político quando se empenha a investir e problematizar a esfera das relações, como é feito nas duas performances citadas no parágrafo anterior. Deste modo, podemos considerar que a arte nos permite a conscientização das relações humanas. Pois ao deslocá-las, as tornam visíveis, permitindo que enxerguemos suas conseqüências na vida cotidiana.

Ao observarmos registros desse trabalho, notamos que os visitantes que participaram da performance se sentaram e permaneceram estáticos e muitas vezes assumiram a mesma posição corporal da artista e assim permaneceram, em silêncio, como uma imagem da artista refletida em um espelho.

Ao convidar o visitante a se sentar junto a ela, Marina está abrindo espaço para uma interação. O sentido da obra nasce de uma colaboração, de uma negociação entre o artista e as pessoas que vêem observá-la. Então o que acontece, por exemplo, se o visitante a tocar? Ou tentar movê-la? Será que ela terá uma reação? Ou seguranças do museu virão retirar o visitante rebelde? Essas são algumas questões trazidas pela arte relacional. Seria como um jogo onde existem regras pré-estabelecidas pelo artista? Quando alguém não segue as regras, essa pessoa estaria prejudicando o trabalho? Muitos trabalhos interativos apresentam este problema. Mas a partir do momento em que se compartilha uma obra, isto é, quando o observador começa a fazer parte da obra, esta deve estar aberta a mudanças e algumas vezes ao seu próprio fim.

Dirigindo a discussão ao restante da exposição que faz parte do trabalho “ The Artist is present” (em que jovens artistas, re-performando algumas performances feitas por Marina Abramovic no passado), percebemos que, ao optar por realizar as performances no lugar de mostrar registros imagéticos, Abramovic desejava passar para o público a oportunidade de ter a sensação de estar diante da performance em si, muito diferente de ver apenas fotografias e vídeos. E como as performances serão realizadas durante todo o período de exposição (três meses) o caráter instantâneo e efêmero, próprio da performance, dá lugar à sua exposição e repetição contínua. Uma mesma pessoa pode ver as performances várias vezes em dias diferentes, assim como um quadro ou uma escultura em exposição no museu.

Portanto, surgem as questões: estas performances realizadas no MoMA são performances de Abramovic ou do artista/performer que a está realizando? Neste caso, podemos trazer à tona novamente Bourriaud, ao tratar o conceito de pós-produção?

Talvez não devêssemos considerar que os jovens artistas estão realizando suas próprias performances a partir das performances de Abramovic. Mas seria o caso de considerá-los como meros instrumentos nas mãos da artista? Podemos comparar este evento à obra “Fresh Acconci” (1995), de Mike Kelley e Paul McCarthy, em que eles usam atores profissionais para realizar performances de Vito Acconci. Esta obra também levanta a questão sobre quem é o artista, afinal? E será que esta questão ainda é relevante para a arte contemporânea?

Segundo Bourriaud, deve-se inscrever a arte numa rede de signos e significações em vez de considerá-la como forma autônoma ou original. Portanto, não importa quem é o realizador, ou o criador da performance: o importante é o que está sendo transmitido por ela. Sempre considerando que a obra não é mais um produto acabado: ela entra no circuito, vira um local de manobras, um gerador de atividades e de significados.

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